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Depressão e distúrbios de personalidade: sinais de alerta em quem nos rodeia

A saúde mental é, cada vez mais, uma preocupação central na vida moderna, mas continua a ser envolta em estigma, silêncio e desconhecimento. Entre as condições mais prevalentes e, simultaneamente, mais difíceis de identificar no quotidiano, estão a depressão e os distúrbios de personalidade. Ambas podem alterar profundamente o comportamento, a forma de interagir com os outros e o modo como a própria pessoa vive o mundo à sua volta.

Por vezes, quem sofre não tem consciência do seu estado ou não encontra forças para pedir ajuda. Outras vezes, os sinais estão à vista de todos, mas passam despercebidos, ou são atribuídos a “fases” ou traços de personalidade. Neste contexto, torna-se essencial desenvolver a capacidade de observação e empatia, para que possamos estar atentos aos que nos rodeiam e agir, se necessário.

Sinais de Depressão

A depressão é uma perturbação do humor que pode afetar qualquer pessoa, independentemente da idade, género ou condição social. Não se resume à tristeza: é uma condição persistente e incapacitante que influencia o corpo, as emoções, o pensamento e os comportamentos.

Sintomas emocionais

  • Tristeza profunda e persistente: diferente da tristeza ocasional, a pessoa parece estar “presa” num estado de melancolia.
  • Perda de interesse: atividades que antes eram prazerosas — sair com amigos, hobbies, relações íntimas — deixam de ter significado.
  • Sensação de vazio ou desesperança: como se nada tivesse sentido ou possibilidade de melhoria.
  • Culpa excessiva ou sentimentos de inutilidade: a pessoa sente-se constantemente um fardo para os outros.
  • Pensamentos de morte ou suicídio: estes podem ser expressos de forma direta ou subtil (“não fazia falta a ninguém”, “gostava de dormir e não acordar”).

Sintomas físicos

  • Alterações no sono: insónias ou hipersónia (dormir em excesso).
  • Fadiga constante: a pessoa parece sem energia, mesmo sem esforço físico.
  • Alterações no apetite e peso: perda ou aumento de apetite significativos.
  • Dores físicas inexplicáveis: como dores de cabeça, nas costas ou no estômago.

Comportamentos alterados

  • Isolamento social: evita contactos, cancela planos, não atende chamadas.
  • Diminuição do desempenho no trabalho ou escola: atrasos, erros frequentes, dificuldade de concentração.
  • Negligência pessoal: falta de higiene, aparência desleixada, desorganização.

Exemplo: Uma colega que costumava ser animada e participativa começa a faltar frequentemente ao trabalho, parece sempre cansada, deixou de conversar com os outros e apresenta-se visivelmente mais magra e abatida.

Sinais de Distúrbios de Personalidade

Os distúrbios de personalidade são padrões duradouros de pensamento, sentimento e comportamento que são inflexíveis e desviantes em relação às normas culturais. Embora existam diferentes tipos (como o borderline, narcisista, antissocial, esquiva, obsessivo-compulsivo, entre outros), alguns sinais podem servir de alerta.

Comportamentos indicativos

  • Instabilidade emocional acentuada: mudanças de humor súbitas e intensas, desproporcionadas face ao contexto.
  • Relacionamentos difíceis: padrões repetidos de conflito, manipulação ou dependência extrema.
  • Autoimagem distorcida: alternância entre sentimentos de grandiosidade e autodepreciação.
  • Comportamentos impulsivos ou autodestrutivos: como gastos excessivos, promiscuidade, automutilação.
  • Medo intenso de abandono: reações exageradas perante pequenas separações ou críticas.
  • Desconfiança generalizada: interpretar as intenções dos outros como maliciosas, mesmo sem evidência.

Exemplo: Um amigo que frequentemente entra em conflito com todos, sente-se constantemente rejeitado, reage com raiva a pequenas contrariedades e faz comentários recorrentes sobre “ninguém se importar com ele”.

Quando Intervir

Reconhecer os sinais é o primeiro passo; o segundo, e não menos importante, é agir com sensibilidade e responsabilidade.

Como abordar alguém com sinais de sofrimento psicológico

  1. Escolher o momento certo: um ambiente calmo, privado, sem distrações.
  2. Usar uma abordagem empática e não julgadora:
    • Evite frases como “Isso é só uma fase” ou “Tens de te animar”.
    • Prefira: “Tenho reparado que tens estado diferente ultimamente. Está tudo bem contigo?”
  3. Oferecer apoio, não soluções imediatas:
    • A escuta ativa é mais valiosa do que conselhos imediatos.
    • Valide os sentimentos da pessoa, mesmo que não compreenda totalmente.
  4. Incentivar a procura de ajuda profissional:
    • Pode sugerir uma ida ao médico de família, a um psicólogo ou psiquiatra.
    • Ofereça-se para acompanhar a pessoa, se isso a fizer sentir-se mais segura.
  5. Não desistir à primeira tentativa:
    • É possível que a pessoa recuse ajuda inicialmente. Continue presente, sem pressionar.

Quando é urgente agir

  • Ideação suicida clara: se a pessoa expressa vontade de morrer ou planos concretos, é fundamental procurar ajuda imediata (Linha SNS 24 – 808 24 24 24, emergência – 112).
  • Comportamentos autolesivos repetidos.
  • Perda de contacto com a realidade: delírios, alucinações, discursos incoerentes.

A saúde mental não é um luxo — é uma necessidade básica e transversal a todas as idades e esferas da vida. Estar atento aos sinais de depressão e distúrbios de personalidade nos outros é um ato de humanidade. Pode ser o primeiro passo para quebrar um ciclo de sofrimento silencioso.

intervenção precoce faz a diferença: permite que a pessoa encontre suporte antes de atingir um ponto crítico, evita agravamentos e facilita a recuperação. Tal como numa doença física, quanto mais cedo se diagnosticar e tratar, melhor o prognóstico.

Não temos de ser especialistas para ajudar — basta estarmos atentos, disponíveis e bem-intencionados. Numa sociedade que se quer mais empática e saudável, o cuidado com o outro começa por uma pergunta simples, mas poderosa: “Estás bem?”

CogniLab

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