Quando a bola deixa marcas que não se vêem
Lembro-me bem das tardes de domingo em que o futebol era tudo. O relvado, os gritos nas bancadas, os passes certeiros e, claro, os cabeceamentos. Um gesto técnico, limpo, treinado vezes sem conta. Um símbolo de bravura e de entrega total. Nunca imaginámos — ou talvez não quisemos imaginar — que cada impacto podia estar a escrever uma história diferente. Mais silenciosa. Mais sombria.
Em maio de 2024, 35 antigos jogadores de futebol — muitos deles heróis de estádios ingleses, nomes gravados nas memórias de adeptos — decidiram erguer a voz contra o que dizem ter sido uma “negligência prolongada”. Avançaram com processos legais contra as federações de futebol inglesa e galesa, contra a Liga Inglesa e até contra o IFAB, o organismo que dita as regras do jogo. Acusam o sistema de os ter deixado à mercê de danos cerebrais, ignorando os sinais, os alertas, os riscos.
Joe Kinnear, antigo jogador do Tottenham e treinador de vários clubes, morreu em abril de 2024. Tinha 77 anos e vivia com demência vascular diagnosticada em 2015. Ele é, agora, um símbolo. Não por um golo ou um título, mas por aquilo que o futebol lhe pode ter tirado, e em silêncio.
Gary Pallister, ex-defesa do Manchester United, falou abertamente sobre as enxaquecas que o acompanhavam nos dias de jogo: fortes e persistentes. Hoje, teme o que essas dores podem significar. O que podem ter deixado para trás. Não é o único — Steve Howey, seu antigo colega, é um dos muitos que estão a tomar medidas legais.
Isto não é apenas uma questão de tribunais ou indemnizações. É um murro no estômago para quem acredita que o futebol é só paixão e glória. A ciência já não deixa margem para dúvidas: a Encefalopatia Traumática Crónica — sim, um nome grande e complicado — está associada a traumas repetidos na cabeça. E o cabeceamento, o gesto que sempre aplaudimos, pode ser o início de uma lenta e invisível deterioração.
Não se trata de pôr o futebol em causa. Trata-se de pôr a vida dos jogadores em primeiro lugar. De aceitar que o desporto também tem responsabilidades — e que há formas de proteger quem dá tudo dentro de campo. Avaliações neuropsicológicas, programas de estimulação cognitiva, acompanhamento preventivo. Ferramentas que já existem e que podem fazer toda a diferença.
Talvez esteja na altura de olharmos para o futebol com outros olhos. De percebermos que o verdadeiro jogo bonito é aquele que cuida de quem o joga. Mesmo quando o apito final já soou há muito.